Corrida da APAE Brusque 2026: 44:19 nos 10k e o RP que veio sem planilha cirúrgica
Neste post
A planilha pedia 50, o corpo entregou 44
O Samuka montou a planilha em três blocos progressivos, com janela de pace pra cada um:
| Bloco | Distância | Pace previsto | Tempo previsto |
|---|---|---|---|
| 1 | km 1 a 3 | 5:15 a 5:20 | 15:45 a 16:00 |
| 2 | km 4 a 7 | 4:55 a 5:00 | 19:40 a 20:00 |
| 3 | km 8 a 10 | 4:45 a 4:50 | 14:15 a 14:30 |
| Total | 10 km | 4:59 médio | 49:40 a 50:30 |
A meta era trabalhar negative split conservador, segurando o cavalo no início porque eu venho de bloco de volume alto e a APAE entrou no calendário como prova de ritmo, não de pico. Plano coerente com o momento da temporada.
Joguei a planilha fora no km 1.
Não foi decisão consciente. Larguei na cadência que o corpo pediu, achei que estava em 5:10, olhei o relógio no fim do primeiro quilômetro e vi 4:55. Era pra ser o pace do bloco 2 já no quilômetro de aquecimento. Em vez de freiar, segui no que dava. No km 2 já estava em 4:20 e dali pra frente foi sempre sub-5.
Vaporfly Next% 2: o que ia ser aposentado virou estrela
A história do tênis vale uma seção inteira porque ela é meio absurda.
Comprei o Nike Vaporfly Next% 2 há três anos. Rodou só 200 km e ficou guardado. Aquele tênis que você compra empolgado, usa em dois ou três treinos, percebe que é pra prova de verdade e arquiva esperando o dia. O dia não chegava. O carbono envelhecendo dentro da caixa.
Quando peguei ele esta semana pra preparar a APAE, vi o problema: a entressola está descolando numa região da parte de baixo. O solado em si está praticamente intacto pelo pouco uso, mas a cola da espuma cedeu com o tempo de prateleira.
Foi a primeira vez competindo nele. Pensei em deixar pro próximo treino “pra ver se aguentava” e largar de Vomero Plus na APAE, como já fiz nas outras provas. Decidi pelo Vaporfly por dois motivos:
- Brusque é plana e seca. 10 m de ganho total de elevação na prova inteira. Se o tênis ia falhar, falharia num cenário menos hostil que uma meia com chuva.
- Se ele não rendesse hoje, ia direto pra oficina sem testar. O ponto era ver se o carbono ainda entregava antes de gastar dinheiro consertando a entressola.
Entregou. 44:19 com placa de carbono debaixo do pé responde a pergunta: vou consertar e dar mais milhagem nele. O carbono envelhecido ainda mola.
Largada às 7h: 14°C, sol baixo, Vale do Itajaí acordando
Largada às 07h em ponto no Centro de Brusque, 14°C, céu limpo. Vale do Itajaí em maio entrega esse tipo de manhã: friozinho que vai embora rápido com o sol subindo. Foi a primeira prova do ano em que eu não larguei encharcado.
Sem chuva, sem vento, percurso quase plano. Praticamente todas as condições viraram a favor. A única variável era eu.
Brusque pra mim é prova de casa. A APAE entrou no calendário como tijolo da série mãe “Dos 160kg ao SUB 3”, sem vínculo com mandala formal. Eu tinha gravado o vídeo de prévia tratando ela como teste de ritmo. O que eu não tinha feito ainda era transmitir uma prova do início ao fim ao vivo. Essa foi a primeira.
Transmissão ao vivo: a primeira prova inteira em IRL
Foi a primeira prova que transmiti do início ao fim, ao vivo, sem corte. Outras corridas viraram vlog editado depois. Essa foi do aquecimento à medalha, em tempo real, na transmissão completa do canal.
Quem acompanhou viu, sobreposto na tela: o pace que eu estava fazendo naquele segundo, o pace médio, a distância já corrida, a frequência cardíaca e um mapa desenhando o trajeto enquanto eu rodava. Os números chegam na tela no mesmo instante em que chegam no meu relógio.
Essa é a camada que vlog não entrega. Vlog conta a história que eu quero contar. Stream ao vivo entrega a corrida como ela aconteceu: o 4:20 do km 2 apareceu pro espectador antes de eu sequer narrar que tinha aberto o pace. Quem estava assistindo viu eu jogar a planilha fora em tempo real.
Aguentou as horas inteiras de transmissão sem cair uma vez. Virou padrão pras próximas provas.
Splits km a km
Dados do Garmin (auto laps de 1 km, distância oficial do percurso 9,93 km):
| KM | Pace | FC média | FC máx | Cadência |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 4:55 | 142 | 154 | 166 |
| 2 | 4:20 | 158 | 162 | 178 |
| 3 | 4:28 | 160 | 163 | 176 |
| 4 | 4:23 | 161 | 163 | 178 |
| 5 | 4:41 | 160 | 163 | 176 |
| 6 | 4:41 | 161 | 164 | 174 |
| 7 | 4:33 | 161 | 164 | 178 |
| 8 | 4:25 | 164 | 168 | 178 |
| 9 | 4:36 | 163 | 166 | 176 |
| 10 (0,93 km) | 4:58 | 168 | 173 | 178 |
Três leituras desses números:
A FC subiu em escada, sem disparar. 142 no aquecimento, fechou em 168 no sprint final, máxima de 173. Curva natural de prova bem distribuída. O corpo trabalhou perto da zona limite, não em cima.
O km 2 foi o mais rápido do dia (4:20), não os finais. Isso significa que eu acelerei demais cedo e segurei o resto. Em prova bem corrida o sprint final tinha sido sub-4:20. Tem espaço pra otimizar a curva de pace na próxima.
Cadência média 88 strides/min (176 steps/min). Mantida estável dos primeiros aos últimos quilômetros. Cadência alta é o que segura a forma quando o pace aperta, e a do Vaporfly ajudou a manter o pé ágil mesmo na hora em que a fadiga começava a aparecer.
Plano do Samuka vs real
| Bloco | Plano (pace) | Real (pace médio) | Diferença |
|---|---|---|---|
| km 1 a 3 | 5:15 a 5:20 | 4:34 | 41 a 46 s/km abaixo |
| km 4 a 7 | 4:55 a 5:00 | 4:35 | 20 a 25 s/km abaixo |
| km 8 a 10 | 4:45 a 4:50 | 4:34 | 11 a 16 s/km abaixo |
Os três blocos saíram abaixo do limite mais agressivo da janela. O bloco 1 foi o mais distorcido: era pra ser controlado e saiu 45 segundos por quilômetro mais rápido que o pedido. O bloco 3, que era o mais ambicioso da planilha, saiu praticamente no mesmo pace do bloco 1 (não acelerei, só mantive).
Conversando com o Samuka depois, a leitura é clara: o salto de performance foi maior do que o ciclo de treino sugeria. A planilha foi montada pra um corredor que faz 48:35 nos 10k. Eu apareci na largada já em outro patamar.
9º na M40-44, 52º no geral
O resultado oficial:
| Métrica | Valor |
|---|---|
| Tempo líquido (chip) | 00:44:19 |
| Distância oficial | 10 km |
| Pace médio | 4:26 min/km |
| Colocação geral | 52º |
| Colocação M40-44 | 9º |
9º na minha categoria, num 10k aberto, é o melhor posicionamento que eu já tive em prova. Não é pódio, mas é a primeira vez que eu termino uma corrida olhando o resultado e vendo a possibilidade dele aparecer ali na frente nas próximas. M40-44 num 10k local junta gente forte que treina sério, e aparecer no top 10 muda o que dá pra mirar.
O dado do Garmin: ascensão total 10 m, descensão 13 m, 738 kcal queimadas em 45 minutos de relógio. Prova plana de verdade.
Nutrição: simples e funcionou
Pra prova curta a operação foi enxuta.
Manhã antes da prova:
- Beterraba (suco)
- Banana com mel
- Café preto
- Hidratação base
Durante a prova: só água nos pontos de hidratação. 10k não pede gel.
Ponto de aprendizado da noite anterior, que vou levar pras próximas: dormi mal e atrasei o jantar. Acertar o jantar e a hora de deitar antes de prova curta vale mais do que carb load complicado. Pra 10k, o que move o ponteiro é o sono e a beterraba.
Correr pela APAE: o que sustenta a 4ª edição
A prova se chama 4ª Corrida APAE Brusque / Pernas Solidárias. A APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Brusque atende pessoas com deficiência intelectual e múltipla na cidade, e a corrida é uma das captações principais que sustenta o trabalho ao longo do ano.
A organização cresce a cada edição. 1.346 dorsais no meu lote, percurso bem sinalizado, hidratação no ponto, largada pontual. Pra prova local que existe pela causa antes de existir pelo cronograma esportivo, a entrega foi profissional do começo ao fim. Vale a inscrição mesmo quem só está usando como rodagem entre provas maiores.
Próxima: Night Run Aeroporto Floripa, 20/06
Próximo tijolo do calendário é a Night Run do Aeroporto de Florianópolis, 20 de junho. Falo dela em vídeo e em post próprio.
O que fica da APAE pro que vem pela frente: o RP de 10k caiu pra 44:19, o Vaporfly Next% 2 vai pra oficina e volta pra rodagem, e a planilha do Samuka pra Florianópolis vai ser refeita em cima de outra base. A linha de partida da próxima começa em 4:26 de pace médio, não mais em 4:51.
Se você correu a APAE Brusque esse ano, conta nos comentários como foi o seu dia. E se você ficou na dúvida sobre tirar o tênis de carbono da caixa por medo de gastar a sola: tira. O carbono não te espera. Tem prova hoje.
Fontes
- Resultado oficial da 4ª Corrida APAE Brusque / Pernas Solidárias (24/05/2026), tempo chip e classificação por categoria
- Dados de pace, FC, cadência e elevação: arquivo .fit do Garmin (
22993710481_ACTIVITY.fit), exportado da atividade do dia - Vídeo de prévia da prova no canal Tênis e Milhas
- Transmissão IRL completa durante a corrida
- Samuka (Team Samuka Run), responsável pela planilha de pace
- APAE Brusque: instituição beneficiária da prova, atende pessoas com deficiência intelectual e múltipla no município
Imagens:
- Hero (curva da ponte estaiada de Brusque): equipe oficial da 4ª Corrida APAE Brusque / Pernas Solidárias
- Foto frontal na ponte: equipe oficial da 4ª Corrida APAE Brusque / Pernas Solidárias
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